sexta-feira

entrou na livraria e pediu o livro. a letra dela amassada num papel. voltou para casa com o embrulho protegido da chuva, fechou-se no quarto. segredos.

olhou detalhes. cheirou as páginas. a lisura do branco. passou as folhas decifrando o objeto livro singular. lembrou então do gesto dela de apropriação: procurou uma caneta e em letras inseguras escreveu no alto da primeira página, à direita, o seu nome e a data. para não esquecer. incapaz de seguir, guardou o livro e saiu. arejos.

aproximou-se várias vezes da gaveta onde o livro esperava, até se decidir. abriu as primeiras páginas – detalhes, datas, dados, dedicatórias. a história do livro talvez estivesse ali naquelas marcações misteriosas e naqueles nomes sem rosto. seguiu cauteloso, até encontrar um grande bloco de texto numa página ímpar: capítulo 1. atento ao terço da página que estava em branco, pensou tetos. chuvas mansas. algodão. lençóis. areias. sóis. os olhos seguiram até o espaço um pouco anterior à primeira letra da primeira linha do primeiro parágrafo. manchas. estranhos desenhos. cavernas. a vontade oscilando: ler e entrar ou restar ali, à margem, esperando o momento em que o texto, por si, invadindo olhos instalasse começos. desistiu. medos.

mais duas tentativas. na terceira, observou a primeira letra espinho e flor. observou com atenção. esta se ligava a uma outra e a mais outra até que, ondulando, uma última letra ficava buscando mãos de qualquer letra que dela brotasse sons. não fazia sentido. o esforço tamanho. cansaço em cada direção.
até que conseguiu avançar delicadamente entre as palavras. pisando como se areia. intuiu que algumas palavras se enroscam nas pernas. outras, estreitas, furam os pés e maltratam mãos. com cuidado e medo, seguia. mas uma palavra (cada) – lentamente decifrada letra a letra – não se ligava à palavra seguinte. dançava sem âncora. ele sabia de um fio invisível que amarra o texto do começo ao fim: onde estava? tropeços.

muito tempo escorreu sobre a primeira linha, que empurrava para a segunda e a terceira. ele não seguia. não mudava a página. voltava sempre para o começo desta em que estava, querendo entender, perceber o sentido do emaranhado de traços negros intermitentes – palavras esparsas estrelas soltas no firmamento e ele buscando constelações.
desesperado, passou a ler em voz alta. engasgando. enrolando. dedos seguindo traços. algas emaranhando a garganta e, de repente, no distrair entre suor e lágrima, escorreu pelo seu rosto a imagem do que conhecia tão bem. mistérios.

percebeu que a palavra era uma gota. e gotas se juntam chuva. chuvas, poça. poças, rio. rios, mar. mares se juntam mundo. palavras são mundos. cada palavra um. cada palavra vários. justapõem-se. complementam-se. desvendam-se. mentem. inventam. relatam. desmontam. palavras justapostas apaixonam e desatam. palavras deságuam. e, entrando nelas, molham-nos. palavras são águas e invadem sentidos. grandes águas, viu os parágrafos peixes e corais. luas refletidas em páginas. marés altas e marés vazantes. acasos.

ele estava dentro do mar texto e, perdendo o medo de se afogar, conseguiu andar sobre as águas e, sob as águas, pisar pedras e cores. raios de sol revelando azuis e letras. os sentimentos brotavam da folha, ganhavam forma e movimento. sem esforço, ele seguia o corpo que o sopro dela animara com o espírito. ela era aquela descrição que se faz dele e de seus caminhos. desejos.

quando acabou de ler, entendeu. cada gesto é agora, no momento de ser lido. e voltará a ser quando os olhos novamente passarem por estas palavras. ou mais: quando registradas uma a uma no mistério que é a memória, as palavras e suas seqüências puderem ser resgatadas, relembradas e recitadas. e a criação estará ali: o milagre será o mesmo da palavra primeira depois do silêncio pairando sobre as águas e o que se seguiu. abraços.