quinta-feira

culposo

na calçada, em frente ao prédio, ela abria os sacos pretos esparramando o conteúdo pelo chão. conferia tudo o que brilhasse. depois, devolvia o lixo para sua embalagem inicial.
...cinco, seis, sete sacos e estavam conferidos todos os seus dejetos da semana. inconformava-se por não achar o que procurava e pela sua capacidade de emporcalhar o mundo. os vizinhos estranharam: mulher tão distinta... agora deu pra isso!
entrando na sala, o telefone tocou. era valter pela segunda vez. convidando-se para o café da manhã de domingo. ela disse que sim, que ótimo, enquanto remoía pedaços de memória tentando encontrar o local do gesto de jogar fora a aliança.
revirou o apartamento. desalmofadou sofás, desalojou aranhas, desempoeirou tapetes, aspirou o carpete, varreu a cozinha e não encontrou. tirou panelas dos armários, revirou lençóis e roupas sujas.
dois dias e ela angustiada. já não sentia fome.
o estômago encolhido não engolia nada. a boca amargava. o coração taquicardia. o desespero não permitia um ou outro pensamento desses levezinhos. no metrô, no ônibus, no trabalho, não havia gesto que não fosse a procura ou a lógica do desaparecimento.
pensava, pensava, pensava. pesava.
chegou ao sábado pálida, de olhos vermelhos. inconformada com a briga que, dessa vez, ela provocaria (tão sem intenção!).
então ouviu valter no interfone, valter no elevador, valter na campainha.
quando os olhos de valter encararam sua mão direita, ela controlou os dedos. sustentou o olhar. normal. ninguém perguntou.
na manhã, a ausência quase despercebia. ela levou o café para valter. na xícara antiga, despejou o líquido, duas colheres de açúcar. a terceira brilhou. mas seus olhos, cansados do brilho de tanto lixo, ignoraram o aviso. valter, encantado, engoliu ávido o café e desesperou. engasgado.