segunda-feira

coisas

quando veio o fogo, já era impossível.
ele estava no banho gelado, lavando os pés – entre os dedos – e até sentir o calor do fogo, já era impossível.
correu pela casa à procura do foco do fogo, mas tanta fumaça. e ela – linda e louca – vinha em sua direção ainda segurando a caixa de fósforos: ria.
ele tão nu e ela rindo, tossindo fumaça. quase cuspindo fogo, ele pensou. e esqueceu de perguntar os porquês.
ela incendiou vários cantos da casa dele, amontoando os colchões dele, os papéis velhos dele e muita, muita gasolina, tirada do carro dele.
as coisas dela – as mais queridas – esperavam no meio da rua, resguardadas.
as coisas dele – odiável na loucura momentânea dela – ardiam tão quanto ela.
ele correu pra fora, para longe da que permanecia em pé no meio do fogo, que já avançava paredes, e num instante de lucidez ele soube que a odiava, mas mais que isso: desejava. e nesse misturado, calado, atônito, enlouquecido, rasgou os restos dela em gestos desesperados, enquanto ela queimava.