terça-feira

cinza

de madrugada.
o cinza derrete e se esparrama. o calor - todo o calor do mundo - concentra-se num só ponto que não é aqui.
recolho minhas coisas e visto a roupa. saio sem fazer barulho. deixo a porta destrancada: você nunca tem medo.
ando no cinza com a tranqüilidade que só é possível nesses momentos anteriores às manhãs.
o vento me gela até os ossos. vou seguindo e deixando nos meus rastros o teu cheiro, o teu sangue e a tua dor. o espanto de quando acordar e perceber que não estou mais, que não sou mais, que ao seu lado ficou o vazio do que não se explica.
não há motivos. há dessincronias: tudo acontece em tempos diferentes - da sede ao desejo. como se fossem outras as luas dos mapas.
vou reticente porque não sei para onde. vou longe. chego na estação do metrô mas ainda é cedo. não tenho relógio nem jornal. tenho muito tempo.
continuo a pé.
começa a garoar e as agulhas espetam meu rosto, as mãos, os tornozelos. o frio não é de todo ruim. lembro de abrir a bolsa e vestir o que me proteja. guardo os documentos no bolso. o resto, jogo no primeiro lixo que encontro – mais leve, porque a vida é mais fácil sem agendas, telefones, datas, compromissos. já não tenho obrigações.
e vou andando meu pensamento por você. o cheiro do café invade a calçada. peço dois.
quanto mais você me comesse, mais fome eu teria. de devorá-lo e vomitá-lo. de devolvê-lo para o mundo como se o mundo fosse inteiro em nós e fôssemos nós o mundo.
mas as coisas com você jamais acontecerão no tempo exato, serão sempre tempos revezados, estupidamente alternados. raros eclipses em tudo o que fizermos juntos.
amanhece.