quarta-feira

chuva

assim que chegou foi logo dizendo não é preciso ter medo. somos todos vis, malvados e feios. ou não. depende do ângulo de quem analisa. e, por isso, podemos evitar as máscaras e as mesuras próprias dos primeiros encontros.
tirei do bolso o estilingue e todas as pedras que juntei para jogar nele diante dos sustos. mas não atirei: deixei sobre a mesa, ao lado das cartas marcadas, das conchas quebradas e da estrela do mar que ele me trouxe de presente - e que fedia a molusco podre.
ele, por sua vez, levou-me até a janela no fim do longo corredor e mostrou no jardim os torpedos, mísseis e canhões antigos. e uma cavalaria completa, pronta a me destroçar ao primeiro sinal.
eu poderia ainda apresentar outras armas. e também ele. de bombas biológicas a bombas atônitas sequer inventadas, passando por ataques de gás e invasão de insetos. um gesto qualquer de guerra seria fulminante e o coração implacável diante dos pedidos de perdão.
enquanto ele cobria com lençóis limpos a grande cama abandonada, eu tirava as roupas dos baús, trocava as flores secas dos vasos, abastecia de óleo as lamparinas e descobria os móveis, sacudia o tapete. na casa limpa, o cheiro de carne assada e café. o corpo alimentado dispensa as batalhas.
algum dia depois, ele saiu para buscar coisas - canivetes, farinha, laranjas, sabonete, comida prum gato. a primeira vez que fiquei sozinha à espera. enviou bilhetes dizendo volto qualquer hora, não se preocupe, estou com amigos, pago as contas, busco perspectivas, faço as compras.
saí pela mata na direção oposta. andei muitos dias, talvez em círculos, me perdendo cada vez mais e cada vez mais não querendo voltar para a casa, o vazio, a vida à espera que eu levava. mas até o nada um dia se transforma e o atalho chegou numa grande árvore. subi por ela, andei em seus galhos e as folhas eram telhas e as telhas trincavam e por baixo das telhas havia uma casa onde a espera me esperava e o cheiro da carne e as amoras e o café quente sobre o fogão.
desta vez, perdido o medo, eu pedi: não vai mais embora assim. que trabalhe, veja amigos, mas que os intervalos sejam curtos e certos de volta. antes que respondesse, eu já pedia outra coisa: que abra as janelas, deixe entrar vento e sol, chuva e noite e não deixe de existir. eu não quero guerra.
ele não entendeu: você fala grego. não é possível viver de sobreaviso o tempo todo, não é possível viver assim isolado. eu trouxe tudo o que é bom e bonito, o resto, dispense. que eu tivesse claro que o amor, sim, valia alguma coisa e o resto era poeira.
fui até o quarto, desfiz a cama, guardei as roupas, cobri os móveis e avisei estou indo, não volto, tudo já foi longe demais. vou buscar outros lugares onde eu não me perca ao sair. dei um beijo, chamei um táxi. dentro do carro, o motorista era meu pai, depois meu irmão, depois um homem que eu nunca vi, depois decolou e fomos muito longe, muito alto e chegamos a uma praia onde não havia casas. as árvores inclinadas pelo vento constante davam um ar de abandono e o táxi com meu pai-irmão-homem-que-não-conheço sumiu.
construí um abrigo onde as pedras protegem do vento. ali, escondida, eu o esperei. quando escureceu, chegou. veio lembrando coisas boas e não dizendo nada, adivinhando sentimentos. cacos de vidros coloridos caíam de seus bolsos e me deu água. e me deu colo. e me deu asas. depois disse que estava partindo. feliz por me ver tão bem. olha, quanto mais longe estivermos um do outro, mais a vida vai nos trair. porque não é importante construir barcos nem planejar filhos. e foi embora. eu, sem entender.
durante muitas semanas me alimentei de peixes e algas, ensaiando voar com as asas ganhas. nada acontecia. ainda que eu me largasse de cima das árvores, contra e a favor do vento, nada. veio alguém trazer receitas de xaropes, fortificantes e bolos. eu permaneci, atenta às minhas tantas possibilidades.
nos encontramos no farol da entrada do banco de corais. o mar calmo. a pele salgada sangrava o esforço e ele disse outra vez estamos perto. ainda somos próximos e iguais. ainda pulsa a vida.
deixei as asas de lado. tomei um banho quente e na grande casa, metamorfose do farol, no fim do corredor, pela janela, eu vi o jardim. a lua subia redonda, sem cães nem cavalaria. só ele, passeando entre os canteiros, como quem cuida de mim.