quinta-feira

careca

um homem parou e ficou olhando as revistas expostas na banca. observou atentamente as de noticiário geral - política, economia, variedades em capas estéreis. fixou-se nas de moda e hábitos femininos, parecendo entender de maquiagem e fofocas. disfarçadamente foi chegando perto das revistas de erotismo e pornografia. ensaiou tirar alguma da prateleira mas deteve o gesto. pôs a mão indiscreta no bolso. virou-se para ver os carros e caminhões que passavam na avenida larga. fazia frio e anoitecia.
passou o lenço na careca suada e voltou-se novamente para as revistas. o jornaleiro perguntou será que chove. ele fez que não ouviu, o jornaleiro fez que não disse nada. a mão do homem voltou para o bolso, avolumando coisas. o olhar atento aos peitos da ninfeta na capa da playboy. suava cada vez mais. o tempo passava na careca brilhante do homem e ele não se decidia entre ficar olhando revistas pornográficas ou atravessar a rua abordando a prostituta que lhe fazia gestos estranhos com a mão.
permaneceu indeciso até se completar o anoitecer. o jornaleiro da banca já não suportava o olhar do careca e a prostituta, estanque, já nem fazia sinais. mas também não ia embora.
de longe, não era possível saber se chorava. nem era possível saber que a roupa era a mesma do dia anterior nem se acaso sofria ao ver o homem olhando as revistas sem se decidir por ela.
então, o que tinha que acontecer, aconteceu.
ela veio atravessando a rua, cansada. do jogo.
o homem, vendo que ela vinha, tirou a mão do bolso e errou o tiro. mas não errou o nome, nem o carro errou a mira.