sexta-feira

cão

acordou ainda bêbado. o rosto gordo de álcool. o rádio, no vizinho, tocava a globo. o requinte do horror para quem amava mozart e o silêncio. a custo contou moedas e velhas notas. desceu as escadas torto. atravessou o saguão do prédio, poucos passos na calçada, na padaria encontrou o cão sarnento que o acompanhou na madrugada: do centro até ali. o cachorro esperava como se estivesse acostumado. abanou o rabo quando o viu entrar e pedir dois pãezinhos e um litro, do c. o cachorro se aproximou e, no movimento, o português se deu conta da presença e gritou: sai fora, cachorro imundo! e já jogava o pedaço de pau que pegou na perna do homem. português filho da puta! e o português espantou-se porque não era aquele um homem de dizer xingamentos nem de ter cães, quanto mais um vira-latas doente. então o homem colocou as compras na sacola e saiu com o cachorro no colo. subiu os andares e o cachorro foi direto para a área de serviço e se enrolou e dormiu sobre os jornais velhos. em sua lógica de bêbado, o acontecido não despertou nenhum incômodo. fez café bem forte e tomou com leite e pouco açúcar. o pão morno tinha gosto de de-manhã, mas já passava a sessão da tarde.