quinta-feira

abismo

então, de repente, você teria se voltado para ela, perguntando das possibilidades de chuva e inundação. ela seguiria pisando os paralelepípedos emersos, sem perder o equilíbrio. e você quereria ouvir o que o futuro lhe reservava naquela noite.
depois de tomarem banho e conseguirem uma cama seca, sairiam - regressando pelo mesmo caminho, até avistarem o lugar morno e iluminado. sentariam junto à porta, pediriam vinho, peixe e pão, como num ritual.
quando a luz apagasse, vocês já teriam comido e relembrado coisas antigas, viagens recentes e desejos. a chuva cairia forte outra vez, refrescando o sufoco da noite.
cada traço do rosto dela estaria iluminado sob a luz dos relâmpagos. a cada clarão, um outro jeito a confundir seus gestos: de dor, de tristeza. ou uma alegria distante.
ela, por sua vez, veria apenas um contorno de corpo recortado contra o fundo da porta. lá fora ela veria o céu iluminado pelos raios, a torre da igreja, as telhas brilhando.
a cada pausa, ela teria outras formas de pedir descanso da loucura que estava sendo viver.
você, como sempre, perderia a paciência: ao invés de reparar na magia, sentiria um ódio quase incontrolável da situação.
e aí, entre vocês, estaria instalado o abismo.