sexta-feira

minotauro

encontro a porta entreaberta. entro desajeitada. atravesso o salão escuro e subo a escada, que quase cede ao meu peso. tenho medo mas só assim se chega a algum lugar iluminado.
ouço risos. longe. piso leve como um gato. um degrau por vez. controlo a respiração mas os batimentos cardíacos ultrapassam meu silêncio.
alguém abre uma porta, quando quase piso no mezanino, e um som ensurdecedor me invade, luzes se acendem, giram, piscam.
volta o silêncio. aparece uma mulher que me diz... eu não entendo o que ela diz. e também não me lembro dela. estou assustada. ela me ajuda a tirar o casaco, pega o guarda-chuva e o leva. retorna com chá e bolachas.
ainda estou paralisada mas disfarço com perguntas sobre o tempo, o frio, a chuva, amenidades. até me encher de coragem e perguntar pelos outros.
ela me olha absurda com seus olhos tão verdes que não me vê. o que há de errado na pergunta? não sei.
seguimos por um longo corredor. subimos outras escadas. ninguém. quero ir embora eu digo e ela não responde. passos depois pergunta então por que veio e eu não me lembro.
não há outros. não há mais ninguém além de nós duas. o anúncio no jornal era explícito. ela diz isso e coisas parecidas mas eu não vim por causa de anúncio algum. nem jornal eu leio. nem revista eu vejo. nem tv.
então me lembro. sim: batom.
vim seguindo um longo traço de batom riscado em paredes, atravessando ruas, dobrando esquinas. muitos espaços eu vim, na curiosidade, na distração. tanto que me esqueci. no fim poderia ter sido brincadeira dos vizinhos, de me fazerem seguir por caminhos tão distintos dos meus caminhos sempre iguais.
ela disse mas não há mancha de batom na porta.
eu vejo e cheiro: o batom que usa é da cor do traçado que vim seguindo, um enjoativo morango artificial.
perco os passos nos pensamentos (só alguns ditos em voz alta). essa mulher vende desesperos. corredores labirínticos e entonações variadas ocupando meus ouvidos atentos não disfarçam sua condição nômade e calamitosa. quanto mais andamos, mais eu pressinto a que vim.
então ela se despe na penumbra de um quarto qualquer onde entramos. em troca das minhas coisas, me entrega sua roupa, bolsa, documentos, sapatos, chaves e o batom — inconfundível. veste-se de mim e sai apressada. nem se despede. não consigo segui-la.
estou com frio, tão perdida quanto teseu.

levarei muito tempo até descobrir o truque de marcar com batom as paredes por onde passar, na esperança de que o traçado e o aroma seduzam algum curioso desavisado e esse alguém entre pela porta entreaberta e me substitua neste papel, que nem eu quis.
já terei preparado chá e bolachas.