quarta-feira

milena

encontraram-se no cinema. ele, ligeiramente embriagado. a vida é triste demais, disse, quando já não soube mais o que fazer. e ela: não é não. e pegou em seu braço com a delicadeza da tarde que só é possível em agosto. e ouviu tudo o que ele tinha colecionado nas noites intermináveis.
depois, sentiram-se estranhos e ele disse que seria melhor sair da garoa. e que morava logo ali, na avenida grande.
aquela barulhenta? ela perguntou espantada. mas, para ele, o problema era a cidade quase desconhecida. e ela prometeu passear junto nas tardes de domingo quando a vida faz intervalo.
chegaram na casa. ela, assustada com seu gesto de ousadia, disse: eu não deveria ter vindo.
e ele, sem dizer nada, pediu a ela que ficasse.
e porque ela entendeu o pedido, guardou o medo e ficou.
ele perguntou o que ela fazia e ela explicou um pouco reticente, porque não via muito sentido em descrever cotidianos quando tinha tantas coisas por conversar e o tempo é pouco e nunca se sabe se voltariam a se ver ou não.
por trás do que ela dizia, ele percebia as angústias. sabia do sofrimento quando não havia quem negasse permissão à dor. e imaginava o quanto seria difícil permanecer próximo, que provavelmente ela se afastaria porque, afinal, ele mal sabia dizer o que sentia.
ao parar de falar, ela entendeu que ele sabia ver as coisas de um outro modo.
no silêncio, o medo cresceu nos olhos e o mundo ficou pequeno demais e sem perspectiva. ela disse: é tarde, eu vou indo. ele: não, fica mais um pouco. acendeu um cigarro. deixou o silêncio se esparramar lentamente. pôs água pra ferver: mate ou camomila?
camomila.
e ele perguntou seu nome. ela inventou: camila, sabendo que era outro. o meu é carlos, ele mentiu. sem saber que quando, alguns dias mais tarde, ela tivesse coragem de procurar por ele, eles se desencontrariam. o porteiro diria: carlos? não, o carlos não mora mais aqui. quem mora é um moço que quase não conversa. acho que se chama ronaldo. e ela iria embora pelo viaduto pensando: é sempre assim. lembrando histórias de tantas mulheres em sua última tentativa de voar.