quinta-feira

maio

faço anotações perdidas neste primeiro de maio. passei o dia à beira da lucidez. o frio. o vento uivando pelas frestas. a colcha de retalhos dos seus vestidos. os seus lápis de cor.
e eu preenchi espaços da casa com as cores que você mais gostava. meus traços andam inseguros. o máximo que consegui foram aquelas caretas que a gente desenhava quando era criança e a professora completava com flechas. mamãe, avião, saudade, casa. marília.
quando vieram me buscar à tarde para o cinema marcado, encontraram-me encolhido no tapete do banheiro depois de já ter vomitado sua imagem mais de cem vezes.
mas ainda vale a tática de lagartixa (de se refazer dos grandes cortes). troquei de roupa. fiz a barba. fechei a casa.
na rua, voltei a respirar. apertei minhas mãos com força quando lhe vi enforcada no poste em frente.
aos poucos, conseguiram me convencer: miragem.
ainda assim, o filme todo eu fiquei com um gosto amargurado na boca. ninguém imagina. e era só uma pipa — folhas de seda tão comuns no outono.
na saída, pedi que me levassem até você. sempre a mesma desculpa: palavrinha rápida.
desconversaram que era tarde, talvez estivesse dormindo.
voltando para casa não convidei ninguém a entrar, mas não quiseram me deixar só.
amauri está preparando algo para comer. sérgio deitou no sofá do escritório lendo os livros que você deixou.
eu, ao lado do telefone, faço anotações perdidas neste primeiro de maio, enquanto imagino números de telefones que poderiam ser seus. qualquer um que tivesse a cara da sua eternidade.