segunda-feira

levitar

depois, começou a se sentir mal todas as manhãs. vomitava. tinha enjôos. além do sintoma metafísico, uma sensação de levitar sempre que dormia.
então, evitava as manhãs e o sono. inventou mil artifícios.
por penúltimo, descobriu o café com coca-cola. durante muitas semanas resistiu aos sonos e já não enjoava.
mas quando os sonhos invadiram o dia claro do cotidiano, exasperou-se. do desespero passou à mais completa calma. da calma entrou em coma, em coma dormiu. enquanto dormia, levitou, acordando pela manhã, teve enjôos e ânsias de vômito.
tomou um banho. a água gelada tirava o sono.
banhava-se, portanto, de pouco em pouco. no trabalho, nas madrugadas. já não ia aos cinemas.
até que a pele se soltou na alquimia do banho. e no chão, perto do ralo, ele viu, estupefato, sua pele levitar adormecida. vestiu-a de susto e por sentir-se nu. dormiu. contorceu-se de dores.
imaginou o tempo passando e ele se desfazendo em ânsias.
o momento do amor negado.
a companhia dos amigos para sempre protelada.
toda esperança era vã.
já não andava de carro. não saía na chuva. o corpo, cheio de hematomas, era testemunha única de seu desespero.
então, procurou cartomante, pai de santo, padre, benzedeira. fez trabalhos e mandingas. rezou terços, pagou promessas.
amaldiçoou sua qualidade de macho. sua capacidade de santo. a podridão em que se afundava. o fungo. o fumo. o cheiro absurdo das roupas sempre por lavar. o vômito acumulado em vasilhas e os pedidos de milagre esparramados pela casa. a incapacidade de encontrar respostas.
na primavera deu à luz um menino chamado joão. nunca mais teve enjôos. levitava quando via o seu igual.