terça-feira

janeiro

chegando janeiro, júlio também chegou. no final da tarde. chovia. feito a bachiana número cinco de villa-lobos. ela, tirando o bolo do forno, ele fez a pergunta óbvia: adivinha o que eu trouxe (mostrando a mala cheia de surpresas).
ela olhou lá fora, viu vagalumes demais e pensou: perdi a noção da lua. não respondeu.
o bolo. júlio. a mala. a chuva.
de dentro de seu silêncio de tanto e tanto tempo, ouviu sua voz: que bom, você voltou.
e júlio viu o rosto dela resposta. asas coloridas de borboleta. capim ao vento. fruta madurando sangue. saliva. trânsito em são paulo. aeroporto. neon. seu gosto. concreto.
ela tirou papéis, calculadora, livros de cima da mesa. pegou manteiga, bolo e coca-cola. quis entregar dizendo come. mudou de idéia. foi fazer café.
então júlio largou a mala no canto. tirou a capa molhada e lavou as mãos. atento a cada gesto de revoada. aceitou o café. tomou um gole. quente. que bom, pensou. e pensou dizer. mas não disse.
ela ali, à sua frente, e ele não dizendo nada. encantado.
a chuva em tom agudo.
ela levantou para tirar o avental. tocou o rosto de júlio com suas mãos de dez mil laranjas terra alecrim.
no rosto de júlio, barba por fazer e mãos mais que perfeitas. lentas. certas da docilidade do planeta na hora em que tudo pára.