quarta-feira

incêndio

a lua fica cheia sobre a cidade. as luzes do prédio ao lado se acendem até que o incêndio se completa.
o ar está pesado. as explicações sobram onde falta abraço.
o corpo de bombeiros não vai tirar a tempo a criança que se desespera no terraço. não há água.
estou cansada desse espetáculo e nem entendo - de cima da minha incapacidade de transitar pelo mundo - como podem os carros e caminhões andar nas ruas sem se chocarem uns com os outros. e as pessoas não enlouquecem.

a mãe da criança espera na calçada. talvez saiba que espera em vão.
hoje é o primeiro dia que não o entendo. você fala. eu não ouço. o que eu digo você dilata ao infinito num gesto que eu não vejo.
o fogo engole a criança mas de longe não se ouve o grito nem o choro nem o medo. enche de luz os cabelos de quem pára pra ver.
estou perdida como a criança e o fogo em volta. estou silenciosa como a mãe.
não há espetáculo que nos redima, mas você quase se exime ao saber de antemão todas as coisas que eu penso e o que me faz pensar assim. eu não escapo da sua lógica e me movo no seu clarão.
onde estamos nem sempre faz sentido. e eu tenho medo do que na vida doa.
pensei ir sozinha para casa mas vou levando-o comigo, incapaz de abandonar. e incapaz também de falar dos cotidianos, que estão aí sendo vividos, acesos aos poucos como se acende um interruptor ao se chegar em casa no escuro.