quinta-feira

homem

ao roer as unhas, concluiu que a si mesmo se bastava. era seu próprio alimento. levantou-se cheio de si.
tirou o espelho do fundo da rede de pesca, fosco, quebrado entre tantas tralhas. e se olhou abismado.
na beira do rio, sob o sol, fitou-se inteiro horas a fio. tão belo. tão menino. tão homem. tão cheio de si que se vomitou a si mesmo num lance de parto praia rio e areia clara.
e o homem, antes cheio de si, agora se viu diante de si mesmo e não entendeu.
o homem, antes pleno, era agora estranho em si mesmo. havia o outro: tão quanto ele mesmo, mas outro.
o rio não dizia nada. sem sol, a tarde ia, mas ficou suspensa na nuvem lilás. a água ali e os homens fixos com o mesmo pensamento. um pai do outro. outro pai do um. ou seus iguais.
veio a maré e molhou os pés dos homens que queriam ser um só: quem matava quem?
o vento prolongou a pergunta incômoda na casa. e era o vento prolongando. o chiado na chaleira chiando. e a bicicleta largada no jardim, largando. e era a pergunta. a morte. a dor da vida no igual. feito amor.
e os homens, que se bastavam a si mesmos, reviraram o mundo procurando resposta para a pergunta.
encontraram-se novamente ali. no mesmo rio, na mesma praia onde o tempo estancara, e a maré. o homem, que gerara a si mesmo e se bastava, viu o seu igual e o tomou nas mãos. surpreso.
acariciou a pela macia mais lisa que o vidro e o medo mais medo que o vento. pulsou. pulsou. pulsou.
o homem, ainda assim, bastava-se a si mesmo. e não era isso a dor. mesmo sendo um e outro e um querendo ser o outro e o outro sendo o um, não houve domínio.
e o vendaval se fez. o homem sendo cada um e sendo um. o homem ao vento, ao temporal, o homem exposto: só.