terça-feira

gemer

ao sair do prédio, perguntou as horas. sete e quarenta e cinco. só? é. não há algum engano? não há engano.
então é isso: uma história de tantos anos mereceu o mais curto dos fins já vividos. é a vida, constatou. e foi arrastando solidões até o carro que deixou estacionado ali não fazia nem meia hora.
o problema dele é que gemia. gemia sempre. como se morresse a cada minuto e todos fôssemos responsáveis por isso. não que não fosse verdade a sucessão de pequenas mortes. mas gemer assim! chegava a ser obscena essa explicitação da condição humana. e ela, tão mais velha, não queria ser relembrada a cada instante.
por isso, tão rápido o final.
sozinha, discreta em sua ciência da vida que se esvai, ligou o carro e partiu.