quarta-feira

gangorra

pega a criança pela mão e vai levando consigo. uma chuva rala sucede à tempestade que derrubou morcegos das árvores. o mar cinza, a areia cheira seres profundos.
a criança move as pernas lentamente, quase arrastado. o homem não quer que ela suje os pés e apressa o passo. a criança ignora a pressa e olha os morcegos caídos. pergunta por que caíram e o homem responde que foi a chuva. e estão mortos? estão mortos, o homem responde. a criança se detém e deixa passar o tempo.
é possível notar que está corada e nos olhos brilha a descoberta da morte do outro. depois esquece e se diverte com coisas como pisar nas riscas pretas da calçada e não pisar nas riscas brancas. isso aumenta a velocidade do passo, quase desequilibrando o homem. dessa vez ele diz cuidado. e outra vez a criança o ignora.
no tempo mesmo da indiferença, parecem felizes por estarem ali, lado a lado.
ninguém mais está na praia. chove um pouco e as pessoas não gostam da areia úmida. é mais fácil fazer castelos, mas o homem não ouve: segue seu passo sempre igual, uma mão dada à criança. a outra segura o chapéu, para que não voe.
a criança pensa que chapéu engraçado, mas não diz. nem ri. é como se guardasse todos os segredos do mundo.
o homem fica inquieto e faz perguntas, tentando decifrar a criança, mas nenhuma é capaz de desencadear o moto-contínuo. e pensar que bastava um riso. o homem não sabe.
a criança se distrai com os restos de algas, pedaços de conchas, águas-vivas mortas. no olhar, ainda a estranheza de quem se reconhece e tem saudade.