quinta-feira

flores

ao abrir a janela, o vento derrubou o vaso. não havia prenúncio de chuva. era um vento sem razão, em plena sequidão de inverno.
precisou limpar a sujeira. há muito não sentia essa angústia tão. ser vento e vaso. ausência total de sossego - uivar e cair.
sentou-se novamente diante da janela aberta. olhava os carros. pensava o dia, o ontem, o anteontem e o antes disso. quantos dias teriam se passado naquela insensatez?
perdera o nome de deus no meio dos papéis, livros, louças, móveis, comidas. como coisa aos poucos engolida por um poço. olhou para dentro de si, como se visse de ponte distante, pontos outros de vida e vista.
o que coaxava ali dentro, há mais de uma semana, sem deixar respostas?
tentou rever os fatos para não se perder em pensamentos e não encontrou nenhum. (era quem comia flores.)
não conseguindo pensar, deixou que o tempo passasse, desenhando bolinhas: minúsculas, pequenas, um pouco maiores - a arte do equilíbrio sem simetria. via os carros passando lá embaixo pequenos como as maiores, e os pedestres, como as minúsculas.
a mão entorpeceu. a angústia se dissipou. talvez fosse possível continuar vivo. o sol descia lentamente e grossos pingos de chuva batiam na vidraça, vindos de céu sem nuvens.
acordou com o frio da madrugada — outra vez o vento —, os músculos desacomodados doíam dor de ressaca. a vida, essa não espera: já era outro dia e nunca mais.