segunda-feira

estrada

há dois dias está na estrada. há dois dias só faz escuro.
mesmo quando não chove, é difícil acreditar que consiga fazer as curvas sem cair em ribanceiras.
que não vê. apenas supõe. adivinha. nem lembra.
porque nem sendo dia, chega a ser noite e, não sendo noite, não há lua nem sombra dela: sombra alguma.
além dos desfiladeiros, imagina a beleza da paisagem, seus contornos, atalhos na mata, casas com varandas. os verdes e seus tantos tons ocultos na ausência de luz.
os faróis logo derretem. o corpo pede descanso. pára no posto e não se acomoda à solidão dos homens acampados no balcão da lanchonete.
volta para o carro mais sozinho do que sempre. pensa novamente o escuro: eclipse, transtorno, tempestade? pelo rádio intermitente, notícias vagas, em ondas.
sabe para onde vai mas não sabe por que vai assim, desafiando as leis da natureza humana. não consegue mais que sofrer. teima. se angustia pela escuridão que as luzes do carro nem tocam. vai dentro dela. voa. quando. ventre. mãe.

já quase não enxergava as mãos, aos poucos engolidas pelo escuro espesso feito um melado se derramando. o breu entrava pela boca, ouvidos, narinas. antes que ocupasse seus olhos, pensou não posso mais e neste mesmo instante, girou o carro abruptamente para voltar pelo caminho por onde viera.
foi então que viu.
viu o dia claro, o sol e os detalhes nítidos da vida. mulheres vendendo frutas na beira da estrada. crianças brincando na água. o cheiro da flor de laranja. dos vermelhos. dos futuros. azuis. verdes. céus. roxos. vestidos. amarelos. vacas no pasto. milharal. um mugido.
abriu a boca em busca de palavras mas só ouviu um som, aquele: um homem e seu acordeom.