terça-feira

dor

você sabe, há momentos em que dói tudo. dói o que já fiz e o que ficou impossível. dói o que eu mais quis, dói viver, dói morrer. dói, principalmente, saber que não somos deuses. dói o palavrão retido e o xingamento dito. dói o choro, dói o riso. dói estar no mundo e estar logo ali, mais adiante. dói o que queremos ser e ainda não somos.
você sabe, ontem à noite eu não dormi por causa dos gritos. primeiro, a moça na estação de trem. olhei pela janela e não entendi o que estava acontecendo. depois, outros gritos vieram do grande silêncio instalado em mim há tantos dias. tudo o que penso e não quero pensar foi gritando cada vez mais alto, foi girando dentro de mim cada vez mais alto, gritando alto, mais alto, alto. não consegui dormir.
você sabe, os sonhos estão cada dia mais difíceis. filho, casa, abraços. o poder da escrita me subjugando. e estes sonhos, rejeitados, vão virando pesadelos e eu não durmo, não durmo. estar acordada traz um excesso de lucidez!
você sabe, eu queria te dizer com toda a calma que já não seguiremos juntos. que há muito estamos distantes. talvez o amor tenha acabado. e não é possível estar assim no mundo, tão sem delicadezas.
você sabe que não é por outro, por outros. não é por ninguém. é por mim e pelas impossibilidades que se enroscam nas teias onde nos perdemos cada dia mais.
você sabe que já sabemos tão pouco um do outro, que já não valemos de abrigo, que já não somos cúmplices, nem amantes, nem amigos. você sabe.
você sabe, eu poderia ficar horas no silêncio, dias, meses inteiros olhando o nada que está sendo a minha vida. a absurda obrigação de ser bem sucedido para ser lembrado. a obrigação de cumprir promessas vagas. a necessidade de ver gente que vive coisas que eu não queria pra mim. e eu não tenho mais paciência. mas eu sei como você prefere o arroz. sei os filmes que você não gosta, o caos que é sua casa, sua vida. do seu corpo, cada movimento de olhar e de não olhar eu conheço e cada cheiro e jeito de fazer as coisas e de sentir e desistir e jogar tudo pro alto. mas eu também sei de onde vêm estes gritos que ecoam em mim e porque sei, não quero saber, não quero te ver nunca mais, até que sejam novas as rotas que eu tiver traçado e as linhas escritas e as palavras e o mundo.
porque você não sabe. e isso, agora, eu sei.