quarta-feira

desveste

o amanhecer demora como se o medo prolongasse o escuro. não quero que você acorde, que me olhe e me lembre o que sou e o que não. um gesto e seu rosto e tudo é diferente. meu corpo volta à inércia anterior. à incapacidade de se emocionar com a sua presença. por dentro, desmonto todas as certezas.
olho no espelho e não me vejo. nos meus cabelos bem tratados vejo os seus. nas unhas pintadas, no batom, na maquiagem retocada, no meu corpo em estado de prontidão feminina, eu vejo o seu corpo, a sua prontidão e tudo se desfaz. não sou uma mulher. o espelho me desmente mas o coração já não se esforça por negar.

quando eu a vi encostada no carro, em plena avenida às três da tarde, não deveria ter olhado duas vezes. meu corpo travestido me traiu. o membro escondido e teso me levou até o seu lado. prostituta sem delicadeza que me aceitou com calma pensando a mulher que eu era. eu ali. e você primeira a me comover. não conversei com suas amigas. não perguntei de sua casa. bastaria, por tantos tempos, encontrar na madrugada no boteco da esquina. juntas, amaldiçoaríamos os homens, as desilusões, a vida sem possibilidades. inventaria atrocidades e um aborto quando você contasse da vontade de ter filhos e da falta de sensibilidade dos homens. inventaria família, data de nascimento, infância, estupro. inventaria mil histórias para permanecer sua igual.
enquanto caminhássemos antes do amanhecer e os carros, as poças, as portas dos hotéis nos refletissem, muitos pensariam - toda puta é sapatão.
não me espantei com a distância imposta ao meu corpo pagão. quando você se despediu, eu inteiro me apertei, um pouco pavor, outro tanto tristeza. olhando os homens que me pagavam, pensei nos homens que lhe queriam e a distância cresceu. senti raiva daqueles homens, de mim e de como as coisas acontecem. poderia ser manchete do np: traveco namora prostituta.
quando você não apareceu na noite, chorei em silêncio e disse a mim mesmo: alguém deve ter contado a ela. e saí perguntando. soube da briga. da faca. no ventre. nos seios. queimaram seus cabelos. deixaram-na caída, nua, inerte. pensaram morta.
procurei sua casa. ninguém sabia. continuei perguntando.
agora me deparo com seu corpo quebrado e você dopada. sento ao seu lado nesta madrugada e você não sabe da minha presença como eu quase não sei da sua. velo seu sono. você sua, se mexe, se contorce aflita. eu afago suas mãos. seu braço. beijo sua boca com delicadeza. passo a mão no seu rosto e, sob a maquiagem desfeita, uma barba inesperada se revela.

não quero que acorde. não quero que me olhe. não quero que me lembre o que não sou.
meu corpo volta à inércia anterior à anterior.