terça-feira

veja

diante dela eu me perdia. pela incapacidade de aliar qualquer gesto àquele desejo. por mais que ela beijasse a minha boca, o corpo não completava a forma. e, se desenhava nas paredes o contorno dos meus seios, nem por isso eu me via.
diante dela eu era uma criança descobrindo sonhos. porque ela dizia de lugares absurdos da memória. de distâncias além de tudo onde jamais estive e de onde ela me trazia.
diante dela o mundo era da cor dos olhos. e nesses olhos eu me perguntava se de toda angústia sempre seria possível desenrolar outras angústias quando fica o vazio no lugar onde antes era ela quem estava.
diante dela não havia medo nem fantasmas e quem quisesse poderia escavar por entre artérias o sangue que já não era meu nem alimento e corria leve por entre dedos que trançavam cabelos e pernas num mesmo suspiro.
diante dela só se podia pensar a vida: frases desfeitas, toda poesia virando pó e revirando pétala no último pedido de mim — condenada.