quinta-feira

triângulo

o desejo abre um cristal no triângulo.
ninguém diz nada no riscar de fósforos. não há mais histórias, futebol, linhas, mão. apenas o desejo inscrito em circunvoluções sem vértices. só silêncios.
sobre as brasas — quase nada — ela deposita mais uma acha. gesto sem nobreza. como o assoar nariz, o caçar piolho, o comer torresmo. mas pleno do cotidiano da vida. água sendo bebida.
mais silêncio cresceu no fogo. os três se aproximam um pouco, atentos, respirando curto. joelhos e pernas confusos, nuvens baixas, goles de cachaça e o fim chegou ao começo.
o primeiro diz: então, estamos aqui. o segundo: mas já não somos os mesmos. ela pensa dizer: pelo menos estamos vivos. mas não diz, sorri. o diálogo desenrolando novelos e ela presa nesta incapacitação — a boca sem se render ao pensamento. nada. mas avança em reflexões desnorteadas que uma tartaruga imensa carrega nas costas.
então, assim ocupada em pensamentos, ela faz um gesto pausado tão, que assusta. contando os seus — de todos — desejos mais escondidos. o vidro grande de colônia verde. a camisa azul com estrelinhas. o copo onde nada se cabia. um sapo. o primeiro dicionário e o contrário da dor. o estar ali, à beira desse fogo, à beira desse segredo, desse abismo, desse abraço, do fim.
nos novos silêncios que se seguem mãos se aconchegam seios se envolvem cabelos se transformam línguas dedos nádegas rins respirações.
e nesse espalhar do cheiro sobre a pele, o cristal se estilhaça e se refaz e se renova e se repõe e se retoca e se recria. se reclui e se revela. se recose. se recobre. se dilacera. e vai lambendo o fogo, a morte, o medo, outro passo, outro vôo, outro lázaro na longa espera, o desejo, sendo.