sexta-feira

tesouro

saiu pela porta da cozinha com a pá em punho, pronta a desenterrar as coisas mais antigas. não tinha mapa do tesouro riscado em pergaminho mas nas veias corria o sangue da grande dor.
e esta dor queria agora desencavar. ficou andando em ziguezague, rodando pelo quintal, e não se decidia.
pensa comovida: e se a dor ali enterrada, às custas de água e minerais, tivesse criado muitas raízes, talvez já lançasse broto? ou, pior, se já tivesse crescido além da conta, além da capacidade de se agüentar uma dor? depois dispensa: mas e se, desenterrada, estende, feito um polvo, suas raízes e mata e sufoca e cerca o que demorou tanto a crescer?
a dor por certo não seria um tesouro. era uma maldição. e com raiva da dor voltou ao ponto que o mapa indicava na lembrança. e foi cavando com ódio, pronta a destroçá-la — dor filha da puta — e por um erro desses de orientação, tão comuns para quem desacostumou do próprio corpo, a dor estava do lado oposto, em outros passos, já florescendo pequenos botões amarelos. cansada, muito cansada de doer.