quinta-feira

shankar

chego sem chegar - descompassada. ouço o que não fui eu que escolhi mas meu corpo aceita. fecho olhos, ouvidos, tecidos, tudos.
alguém se movimenta à minha volta. mesmo sem ver, eu sei. também essa presença não fui eu que escolhi. por isso me permito ficar à deriva.
então.
não abro os olhos e ouço, atenta: ele tira a roupa, o ar fica lento e denso. ele se afasta. ouço bem longe o interruptor e o escuro de agora é mais que o escuro de quem fecha os olhos. sei que ele vai voltar.
e volta.
suas mãos me desmontam e me levam pelos seus caminhos de mãos. e eu cedo. tudo. nada tenho. vou junto, vivendo e sendo vivida, num mesmo movimento.
o som continua shankar. eu continuo eu mesma. mesmo de olhos fechados sei que há o limite. até que o limite se torna mais e mais um pouco e é o silêncio milimétrico de um instante e se rompe, e tudo é o espírito pairando sobre águas, nuvens, samambaias, piratas, plantas, somos mundos e navios, e meus olhos fechados enxergam além e seus braços abraçam o que não se vê e o quando já nada mais se espera vem.