sexta-feira

setembro

como se aproveitassem a minha presença para ensinar o hino nacional a todas as crianças da cidade aqui no pátio vizinho. esta semana: a pátria.
o pior de tudo é a introdução. de manhãzinha até à noite. quase sempre é no começo que há problemas e não acaba nunca. conheço todos os erros. as vozes infantis e o momento em que desafinam. eu me antecipo ao som.
então grito.
fechei todas as janelas. me cobri, tapei os ouvidos. tomei chás calmantes e banhos mornos.
tudo agora, quando precisava tanto pensar na vida. tudo agora — urgindo calma e soluções práticas.
outra vez o berço esplêndido. e eu deitada, enervada, desvairada. dos filhos deste solo só tenho raiva, nestas tardes calamitosamente azuis.
no domingo, quando cheguei, não havia nada além da ave-maria — suportável, mesmo neste excesso de delicadeza em que me encontro. no dia seguinte é que começou o inferno. aliás, os infernos.
soube que precisava partir. logo. imediato. não tinha sequer um telefone ao alcance. tentando pensar. todos haviam partido ao entardecer e eu impossibilitada. saber que já se passaram três dias. daí os infernos. cedo ou tarde, todos somos culpados.
ele veio. abriu a porta silencioso. com as mãos nas minhas coxas indicou a ineficácia de qualquer gesto. e explicou: aqui termina tudo, chegou enfim o tempo do sono. a casa? cercada. as crianças, cantando, ouviram o brado retumbante.
deve ter sido o pedido de batom — no espelho para não borrar. depois, não sei. os bichos soltos na casa, o atordoamento, o cerco falso. o medo da solidão. não sei.
vi nos jornais, dia seguinte, que a fuga provava a culpa. que culpa? era o destino controlado por um sopro. e o sol da liberdade em raios parcos, fracos como minhas pernas e o sentido de estar ali, estatelada. os olhos do menino. estar atrelada ao olhos do pai do menino... meu deus! onde estão aquelas outras crianças? desafia o nosso peito a própria morte.