quarta-feira

rir

nem sorria. se lhe perguntavam por que não ria, respondia que não havia porquê. e elencava misérias das mais cotidianas e individuais às coletivas, de raízes profundas, constrangendo todo ouvinte distraído.
e a cada vez que lhe perguntavam, tinha uma nova miséria a acrescentar ao rosário, que foi estendendo com o passar dos anos.
quando ninguém perguntava, nada dizia. seguia séria, repetindo gestos desgastados.
ontem, no metrô, viu um homem muito mais sério. e rancoroso. olhou para ela. ela olhou para ele. ele olhou outra vez. e mais outra. e outra. no curto percurso entre duas estações, sentiu-se incomodamente observado por ela. levantou-se de onde estava, chegou bem perto e disse: pára de sorrir pra mim, sua velha safada, ou eu te mato. a situação congelou-se até chegar à próxima estação. ninguém dizia nada. nem sorria. então o homem desceu.

hoje, quando lhe perguntaram por que não sorria, desfiou suas misérias já sabidas em detalhes e olhos úmidos. no final, acrescentada a mais recente das misérias, contou a história do homem no metrô e o medo que passou de morrer ali, com seus setenta e poucos anos. fez o relato seríssima. e, de repente, desatou a rir: riu. riu. riu. riu.
até morrer de rir.