quinta-feira

quase

olho o mundo. vejo todas as coisas mas não entendo nada. entro nesse bar para comprar cigarro e reparo na moça sentada displicente e sozinha diante de um café.
percebo suas mãos pequenas e o olhar choroso. depois percebo também seus seios fartos. a blusa é da cor dos olhos e o cabelo é curto como eu gosto. afundar meus dedos na sua nuca. só de aventar a possibilidade eu já entro em estado de graça.
ou de desgraça. porque eu estou ali, sentado na frente dela, há mais de meia hora a menos de dois palmos de seu rosto, e ela não levanta os olhos da xícara nem deixa de se distrair com as bolinhas que faz com o papel do guardanapo.
continuo olhando. o tempo cresce e vai ficando domingo.
meu telefone toca. desvio os olhos por um momento, tentando localizar o botão para que o barulho cesse e nesse intervalo — décimo de segundo — ela vai embora sem bilhete. e eu, que não consegui desligar o celular, me rendo e atendo. do lado de lá, a voz daqueles olhos pedindo vê se não some. e eu quase desapareço.