sexta-feira

plural

no reflexo do espelho, ela vê os limites de seu corpo se desvanecerem.
uma aura, talvez a alma, mantém o sangue em seu caminho de veias e artérias. mas a vida – gânglios, órgãos, ossos, músculos – distende-se na amplidão do vidro e para além de azulejos, paredes, pias, esgotos.
está no mundo como uma grande teia de gestos e desejos.
compreende o pulsar do medo: não há mais campos de batalhas moendo-moendo.
afasta-se do espelho e, no movimento ventilado, percebe que não vive delírios. há dificuldades inerentes a este novo estado — atravessar portas, atender telefones, beber águas, necessitar de luzes — mas é menos áspero e muito mais silencioso.
toma licores doces. grita poesias da janela. derrama-se infinito, declama-se mar. vai aos encontros marcados e às covas sombrias. a tudo sobrevive e de tudo se impregna — os cheiros da madrugada se enroscam nos cabelos, nas axilas, no entre as coxas. ela segue todas as direções.
no amanhecer esmaecido, apressada recolhe o corpo outra vez sob a pele. esquece o coração pulsante no parapeito. sorri. para os vizinhos e para quem quase não a reconhece.