terça-feira

o rio

segunda-feira

a condição poética

Czeslaw Milosz
(tradução de Ana C. César e Grazyna Drabik)


Como se tivesse em vez de olhos binóculos ao contrário, o mundo
se distancia e pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada
nada perde a clareza, fica mais denso.
Já tive antes momentos assim, escrevendo poemas, conheço então
a distância, a contemplação desinteressada, sei assumir
um eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto
o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética.
As coisas difíceis antes, agora são fáceis, mas não sinto desejo
forte de transmiti-las por escrito.
Só agora estou sadio, e era doente, porque o meu tempo
galopava e afligia-me o medo do que viria.
A cada momento o espetáculo do mundo é para mim de novo
surpreendente e tão cômico que não entendo como a literatura
podia querer dominá-la.
Sentindo fisicamente, ao alcance da mão, cada momento, amanso
o sofrimento e não suplico a Deus que queira afastá-lo de mim:
por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros?
Sonhei que me encontrava numa estreita borda sobre o oceano
onde se viam nadando enormes peixes marítimos.
Tive medo que se olhasse, cairia. Virei, então,
agarrei-me nas asperezas da parede rochosa,
e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei
a um lugar seguro.
Eu era impaciente e irritava-me a perda de tempo com coisas triviais
incluindo entre elas a faxina e a preparação da comida. Agora
corto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo
vários tipos de molho.

sexta-feira

entrou na livraria e pediu o livro. a letra dela amassada num papel. voltou para casa com o embrulho protegido da chuva, fechou-se no quarto. segredos.

olhou detalhes. cheirou as páginas. a lisura do branco. passou as folhas decifrando o objeto livro singular. lembrou então do gesto dela de apropriação: procurou uma caneta e em letras inseguras escreveu no alto da primeira página, à direita, o seu nome e a data. para não esquecer. incapaz de seguir, guardou o livro e saiu. arejos.

aproximou-se várias vezes da gaveta onde o livro esperava, até se decidir. abriu as primeiras páginas – detalhes, datas, dados, dedicatórias. a história do livro talvez estivesse ali naquelas marcações misteriosas e naqueles nomes sem rosto. seguiu cauteloso, até encontrar um grande bloco de texto numa página ímpar: capítulo 1. atento ao terço da página que estava em branco, pensou tetos. chuvas mansas. algodão. lençóis. areias. sóis. os olhos seguiram até o espaço um pouco anterior à primeira letra da primeira linha do primeiro parágrafo. manchas. estranhos desenhos. cavernas. a vontade oscilando: ler e entrar ou restar ali, à margem, esperando o momento em que o texto, por si, invadindo olhos instalasse começos. desistiu. medos.

mais duas tentativas. na terceira, observou a primeira letra espinho e flor. observou com atenção. esta se ligava a uma outra e a mais outra até que, ondulando, uma última letra ficava buscando mãos de qualquer letra que dela brotasse sons. não fazia sentido. o esforço tamanho. cansaço em cada direção.
até que conseguiu avançar delicadamente entre as palavras. pisando como se areia. intuiu que algumas palavras se enroscam nas pernas. outras, estreitas, furam os pés e maltratam mãos. com cuidado e medo, seguia. mas uma palavra (cada) – lentamente decifrada letra a letra – não se ligava à palavra seguinte. dançava sem âncora. ele sabia de um fio invisível que amarra o texto do começo ao fim: onde estava? tropeços.

muito tempo escorreu sobre a primeira linha, que empurrava para a segunda e a terceira. ele não seguia. não mudava a página. voltava sempre para o começo desta em que estava, querendo entender, perceber o sentido do emaranhado de traços negros intermitentes – palavras esparsas estrelas soltas no firmamento e ele buscando constelações.
desesperado, passou a ler em voz alta. engasgando. enrolando. dedos seguindo traços. algas emaranhando a garganta e, de repente, no distrair entre suor e lágrima, escorreu pelo seu rosto a imagem do que conhecia tão bem. mistérios.

percebeu que a palavra era uma gota. e gotas se juntam chuva. chuvas, poça. poças, rio. rios, mar. mares se juntam mundo. palavras são mundos. cada palavra um. cada palavra vários. justapõem-se. complementam-se. desvendam-se. mentem. inventam. relatam. desmontam. palavras justapostas apaixonam e desatam. palavras deságuam. e, entrando nelas, molham-nos. palavras são águas e invadem sentidos. grandes águas, viu os parágrafos peixes e corais. luas refletidas em páginas. marés altas e marés vazantes. acasos.

ele estava dentro do mar texto e, perdendo o medo de se afogar, conseguiu andar sobre as águas e, sob as águas, pisar pedras e cores. raios de sol revelando azuis e letras. os sentimentos brotavam da folha, ganhavam forma e movimento. sem esforço, ele seguia o corpo que o sopro dela animara com o espírito. ela era aquela descrição que se faz dele e de seus caminhos. desejos.

quando acabou de ler, entendeu. cada gesto é agora, no momento de ser lido. e voltará a ser quando os olhos novamente passarem por estas palavras. ou mais: quando registradas uma a uma no mistério que é a memória, as palavras e suas seqüências puderem ser resgatadas, relembradas e recitadas. e a criação estará ali: o milagre será o mesmo da palavra primeira depois do silêncio pairando sobre as águas e o que se seguiu. abraços.